Termômetros iguais, sensações diferentes: por que o calor dos verões amazônico e europeu não é igual?
01/09/2026
(Foto: Reprodução) Dias de calor no Amazonas
g1 AM
Sentir calor na Amazônia durante o "verão amazônico", que ocorre entre julho e novembro, pode ser diferente de enfrentar a mesma temperatura em uma cidade europeia durante o verão. Embora o termômetro registre o mesmo número, fatores como umidade do ar, vento, exposição ao sol e características do ambiente influenciam a forma como o calor é percebido pelo corpo.
Na Amazônia, o chamado verão amazônico é o período do ano em que as chuvas diminuem e o sol aparece com mais frequência. É também uma época em que as temperaturas podem subir e, com a alta umidade do ar, o calor pode se tornar mais difícil de suportar.
Na Europa, por outro lado, o verão é uma estação astronômica, definida pela posição da Terra em relação ao Sol. As ondas de calor que atingem o continente têm características diferentes e podem ser provocadas por sistemas atmosféricos que mantêm o tempo quente e seco por vários dias.
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Para entender essas diferenças, o g1 conversou com a meteorologista Andrea Ramos e consultou dois estudos científicos sobre o comportamento do clima na Europa e na Amazônia.
El Niño deixa o verão amazônico com tempo seco e temperaturas altas, em Manaus
Por que 35°C podem parecer tão sufocantes na Amazônia?
A temperatura registrada no termômetro não é o único fator que determina a sensação de calor. A umidade relativa do ar também tem papel importante.
Na Amazônia, o ar carrega uma grande quantidade de vapor d'água. Quando os termômetros marcam 35°C e a umidade está alta, o suor produzido pelo corpo encontra mais dificuldade para evaporar.
A evaporação do suor é um dos principais mecanismos usados pelo organismo para diminuir a própria temperatura. Quando o ar já está muito úmido, esse processo fica mais lento e o corpo perde eficiência para liberar calor.
"O resfriamento do corpo humano depende diretamente da evaporação do suor na pele. Em um ambiente com umidade extremamente alta, a atmosfera já está saturada de vapor, o que impede essa evaporação rápida. O corpo perde eficiência para dissipar o calor interno, elevando drasticamente a sensação térmica e o desconforto", explica a meteorologista.
Por isso, uma temperatura de 35°C acompanhada de umidade elevada pode produzir uma sensação de calor diferente daquela registrada em um ambiente mais seco.
O que é o verão amazônico?
O "verão amazônico" é uma expressão popular e regional usada para identificar a época do ano com menor frequência de chuvas e maior quantidade de horas de sol.
Na Amazônia, a variação da temperatura média ao longo do ano é relativamente pequena quando comparada à de regiões de clima temperado. Por isso, segundo Andrea Ramos, é o regime de chuvas, e não apenas a temperatura, que marca a sazonalidade da região.
Na Amazônia Central, especialmente em Manaus, a estiagem fica mais evidente entre julho e outubro. Esse período, no entanto, não ocorre ao mesmo tempo em toda a região.
"Além disso, é fundamental destacar que esse período menos chuvoso não acontece simultaneamente em toda a região. Enquanto em Manaus e na Amazônia Central a estiagem fica mais evidente entre julho e outubro, outras sub-regiões da bacia possuem calendários climáticos próprios devido às dimensões continentais do nosso território", complementa a meteorologista.
💡 Por isso, o verão amazônico não tem uma única data de início e fim para toda a Amazônia.
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Verão amazônico e verão europeu: qual é a diferença?
Apesar de usarem o termo "verão", os dois períodos são definidos por critérios diferentes.
Na Europa, o verão ocorre entre junho e setembro e é determinado pela posição da Terra em relação ao Sol. Durante essa época, o Hemisfério Norte recebe maior incidência de radiação solar direta por causa da inclinação do eixo terrestre.
Com isso, os dias ficam significativamente mais longos que as noites e o aquecimento aumenta em relação aos meses de inverno.
Na Amazônia, a lógica é diferente. O chamado verão amazônico não é uma estação astronômica. O termo é usado para descrever o período de menor quantidade de chuva e maior presença de sol.
Assim, enquanto o verão europeu é definido pela astronomia, o verão amazônico está relacionado principalmente ao comportamento das chuvas.
Por que a Europa e o Amazonas enfrentam ondas de calor ?
Vista do Mar Mediterrâneo
Lionel Cironneau/AP Photo
Na Europa, as ondas de calor frequentemente estão associadas a bloqueios atmosféricos persistentes. São grandes sistemas de alta pressão que podem permanecer sobre uma região durante dias ou semanas.
Esses sistemas dificultam a chegada de frentes frias, mantêm o céu aberto e contribuem para o ressecamento do solo. O aquecimento também pode ser intensificado nas áreas urbanas.
No Amazonas, os episódios de calor extremo têm outra combinação de fatores. Entre eles estão a diminuição da quantidade de nuvens durante o período menos chuvoso, a subsidência atmosférica, quando o ar seco desce e aquece, a secagem prolongada do solo e, em determinados períodos, a influência de fenômenos como o El Niño.
O que acontece com a atmosfera durante o verão amazônico?
Durante o período menos chuvoso, há uma mudança na circulação atmosférica da região. A convergência de umidade diminui e também ocorre uma redução na frequência de grandes áreas de converção, que são regiões onde o ar quente e úmido sobe e contribui para a formação de grandes nuvens e tempestades.
Com menos nuvens, uma quantidade maior de radiação solar chega à superfície. Isso contribui para elevar as temperaturas, principalmente durante a tarde.
O cenário pode ser intensificado durante a atuação do El Niño ou em anos de seca severa.
"Quando há a atuação do fenômeno El Niño ou em anos marcados por secas severas, a convergência de umidade enfraquece ainda mais. Nesses cenários, a previsão aponta para um volume de chuvas consideravelmente abaixo da média histórica e temperaturas acima do padrão em grande parte do centro-norte do país", ressalta Andrea Ramos.
Períodos secos e chuvosos estão ficando mais extremos?
Um jovem leva comida para sua mãe, que mora na aldeia de Manacapuru, no Amazonas. A aldeia já foi acessível por barco, mas, por causa da seca, ele precisa caminhar 2 kms ao longo do leito seco do Rio Solimões para chegar até lá. Série de fotógrafo mexicano sobre a seca na Amazônia foi vencedora na categoria Histórias
Musuk Nolte/Panos Pictures/Bertha Foundation via World Press Photo/Divulgação
As mudanças no regime de chuvas da Amazônia também foram analisadas em uma pesquisa publicada na revista Nature Communications.
Os pesquisadores Yen-Cing Liang e coautores estudaram alterações no ciclo hidrológico da Bacia Amazônica e observaram uma intensificação das diferenças entre os períodos chuvoso e seco.
"Observamos uma ampliação no ciclo sazonal do hidroclima na bacia do rio Amazonas, onde os períodos chuvosos têm se tornado significativamente mais úmidos e as estações secas mais severas. Essa variação extrema gera desdobramentos diretos não apenas na vazante dos rios locais, mas também na dinâmica da pluma do Amazonas, afetando a salinidade e a estratificação no oceano Atlântico Tropical", registram os pesquisadores no estudo Amplified seasonal.
Quais são os riscos do calor para a saúde?
O calor intenso pode aumentar a perda de água pelo organismo. Na Amazônia, a combinação entre altas temperaturas e umidade elevada pode dificultar a evaporação do suor e prejudicar o processo de resfriamento do corpo.
Entre os principais riscos estão:
desidratação rápida;
exaustão pelo calor;
hipertermia (elevação perigosa da temperatura interna do corpo), em casos mais severos
"Em determinados dias do verão amazônico, também podemos registrar índices de umidade relativa do ar mais baixos durante o pico da tarde. Nesses momentos, a perda de água do organismo se acelera sem que a pessoa perceba, causando ressecamento e irritação constante nas vias aéreas", alerta Andrea Ramos.
Na Europa, os mesmos 35°C também podem representar risco à saúde e estão associados a ondas de calor que podem causar mortes. O impacto, porém, depende da combinação entre umidade, vento, exposição ao sol e características urbanas.
Muitas cidades europeias não possuem infraestrutura preparada para períodos prolongados de temperaturas elevadas, o que pode aumentar os efeitos das ondas de calor.
E quando o calor vem acompanhado de fumaça?
Fumaça prejudica visibilidade de pilotos de barcos no Amazonas
Patrick Marques, g1 AM
Na Amazônia, a situação pode ficar ainda mais complicada durante períodos de estiagem acompanhados de queimadas e incêndios florestais.
A fumaça libera fuligem e outras partículas que permanecem suspensas no ar e prejudicam a qualidade atmosférica. A exposição pode agravar problemas respiratórios e provocar crises alérgicas.
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