Potássio de Autazes: quanto o projeto pode reduzir a dependência brasileira das importações?

  • 17/09/2026
(Foto: Reprodução)
Cidade de Autazes, no Amazonas Potássio do Brasil Há uma contradição no centro do agronegócio brasileiro. O país se consolidou como uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas ainda busca no exterior quase todo o potássio que sustenta a produtividade de suas lavouras. É uma dependência construída ao longo de décadas e que deixa parte importante da produção nacional de alimentos exposta ao câmbio, aos custos de transporte, às oscilações internacionais e às tensões geopolíticas. O potássio é um dos três nutrientes primários dos fertilizantes, ao lado do nitrogênio e do fósforo. No campo, participa da regulação da água nas plantas, contribui para o desenvolvimento das raízes e aumenta a resistência a condições adversas. É fundamental para culturas que movem a economia brasileira, como soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão. Dependência em números Apesar dessa importância, a produção doméstica permanece muito distante da demanda. Diagnóstico setorial divulgado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2026, estima em aproximadamente 97% a dependência brasileira do mercado externo e informa que o país importou, em média, 13,14 milhões de toneladas de potássio por ano entre 2020 e 2024. Os dados mais recentes mostram que essa realidade permanece. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou 9,76 milhões de toneladas de cloreto de potássio, segundo levantamento baseado no Comex Stat, sistema oficial de estatísticas do comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O volume ficou cerca de 3,6% abaixo das 10,12 milhões de toneladas registradas no mesmo período de 2025. Somente em agosto, foram importadas aproximadamente 930 mil toneladas. A redução observada neste ano, porém, não significa que o país esteja se tornando menos dependente. As importações podem oscilar em razão dos preços internacionais, do câmbio, dos estoques, do calendário das compras e das condições do mercado agrícola. Sem um aumento consistente da produção interna, comprar menos em determinado período não representa, necessariamente, uma mudança estrutural no abastecimento. Hoje, a produção brasileira convencional de potássio está concentrada no Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete, Sergipe. A unidade, anteriormente operada pela Mosaic, foi transferida para a VL Mineração em novembro de 2025. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025, da ANM, o país produziu aproximadamente 398,5 mil toneladas de potássio em 2024, expressas em K₂O contido. O número não deve ser comparado diretamente às toneladas físicas de cloreto de potássio importadas, porque são unidades diferentes. O KCl comercial contém, em geral, cerca de 60% de K₂O equivalente. A ANM também registrou a produção de aproximadamente 349 mil toneladas de rochas potássicas utilizadas como remineralizadores em 2024. Esses materiais, entretanto, possuem características, concentrações, aplicações agronômicas e escala diferentes das do cloreto de potássio convencional. Quanto Autazes pode mudar É nesse ponto que o Projeto Potássio Autazes, no Amazonas, ganha dimensão nacional. Dependendo da fonte e da referência técnica considerada, sua produção anual projetada situa-se em cerca de 2,2 milhões a 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio. O Sumário Mineral Brasileiro 2025 registra previsão de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de produto, equivalentes a 1,6 milhão de toneladas de K₂O. A Potássio do Brasil, por sua vez, trabalha com capacidade nominal de até 2,4 milhões de toneladas de KCl por ano. Diagnóstico mais recente da ANM calcula que o empreendimento poderá responder por aproximadamente 17% do consumo brasileiro. A empresa apresenta uma estimativa próxima de 20%. A diferença decorre, entre outros fatores, do período de referência, da demanda utilizada no cálculo e da unidade considerada. Em qualquer um dos cenários, trata-se de uma contribuição relevante. Em vez de atravessar oceanos, parte do insumo usado nas lavouras brasileiras sairia do interior do Amazonas e seguiria predominantemente por barcaças pelo sistema fluvial, em uma operação logística que deverá envolver parceria com a Amaggi. A produção nacional poderia encurtar parte da cadeia de abastecimento, reduzir a exposição do país a fornecedores externos e ampliar a segurança diante de crises internacionais. Esse aspecto ganha importância porque o mercado mundial de potássio está concentrado em poucos grandes produtores, entre eles Canadá, Rússia e Belarus. Mas os números também ajudam a colocar a expectativa em seu devido tamanho. Autazes poderá reduzir a dependência, não eliminá-la. Mesmo operando em plena capacidade, a maior parte do potássio consumido pelo Brasil ainda viria do exterior. A autossuficiência não seria alcançada por uma única mina, especialmente em um mercado cuja demanda acompanha a expansão e a intensidade tecnológica da agricultura. A vida útil inicial do empreendimento é estimada em aproximadamente 23 anos. Isso significa que sua contribuição para o abastecimento nacional também dependerá da confirmação e da eventual ampliação das reservas, além do desenvolvimento de outros projetos de produção de potássio no país. O caminho antes da produção O projeto ainda não produz. Possui licença de instalação concedida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), mas continua em fase de engenharia, preparação e estruturação financeira. Em 2026, a Brazil Potash, controladora da Potássio do Brasil, contratou os serviços de engenharia básica conhecidos pela sigla FEED, de Front-End Engineering Design. Os trabalhos abrangem as instalações de superfície, os poços de acesso à mina e o desenvolvimento subterrâneo. A conclusão dessa etapa está prevista para o início do segundo trimestre de 2027. A própria empresa considera o FEED um requisito importante para a definição mais precisa dos custos, a contratação dos principais pacotes e as negociações destinadas ao financiamento da construção. O Sumário Mineral Brasileiro 2025 indica 2030 como estimativa de entrada em produção. Esse horizonte, entretanto, não constitui prazo assegurado. Depende da conclusão da engenharia, do fechamento financeiro, da mobilização dos fornecedores, do início efetivo das obras e da manutenção das condições regulatórias e judiciais. O investimento necessário à construção tem sido estimado pela empresa em aproximadamente US$ 2,5 bilhões. O valor ainda poderá ser atualizado após o avanço da engenharia e a contratação dos principais equipamentos e serviços. Dois movimentos recentes Duas ações anunciadas em setembro reforçaram essa preparação. No dia 10, a empresa destacou possíveis benefícios relacionados ao Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), além de linhas de financiamento administradas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A existência desses instrumentos, entretanto, não equivale ao enquadramento automático nem à aprovação de crédito para o empreendimento. Entre uma política pública de apoio e o desembolso efetivo de recursos existem análises técnicas, financeiras, jurídicas e de risco. No dia 14, a Brazil Potash anunciou que a Potássio do Brasil assinou contrato definitivo de energia com a Gera Center, empresa sediada em Manaus. A parceria havia começado em maio de 2026, com a assinatura de um memorando de entendimento ainda não vinculante, e avançou em setembro para o contrato definitivo. O acordo, com prazo de 28 anos, prevê a instalação de uma usina modular a diesel com capacidade máxima de 20 megawatts para abastecer a fase de construção durante aproximadamente cinco anos. A estrutura deverá ser formada por 63 grupos geradores modulares, implantados gradualmente, começando com 10 MW e avançando até 20 MW. Depois da conexão planejada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), os equipamentos deverão permanecer como geração de reserva por cerca de 23 anos. Pelo modelo contratado, a fornecedora financiará, instalará, operará e manterá a estrutura. Segundo a Brazil Potash, a parceria retirará aproximadamente US$ 33 milhões dos desembolsos iniciais previstos para energia. Isso não significa que o custo econômico desapareceu: pelo modelo BOOT - construir, possuir, operar e transferir -, parte do investimento deixa o orçamento inicial e passa a ser remunerada ao longo da vigência contratual. A solução resolve uma necessidade prática da construção, mas também levanta questões que precisam ser acompanhadas. Entre elas estão o consumo de diesel, as emissões durante os cinco anos previstos de obras, o transporte e o armazenamento do combustível, os mecanismos de prevenção de vazamentos e o cronograma efetivo da conexão ao SIN. Do projeto à operação Esses movimentos representam avanços empresariais importantes, mas não devem ser confundidos com obra integralmente financiada ou produção assegurada. Mostram que o projeto procura resolver, uma a uma, questões de engenharia, energia, logística, mercado e capital antes da construção. A redução da dependência externa também passou a ocupar espaço maior na política industrial. O Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050, acompanhado pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, estabelece entre seus objetivos a modernização e ampliação das plantas existentes, a atração de investimentos, a pesquisa de novas fontes e a melhoria da infraestrutura e da logística. Em 3 de setembro de 2026, a Lei nº 15.496 instituiu o Profert, voltado à implantação, ampliação, modernização e retomada da infraestrutura destinada à produção nacional de fertilizantes. A legislação também estabelece uma participação mínima de fertilizantes sintéticos produzidos no Brasil nos produtos comercializados no país. O percentual começa em 2% em 2027 e aumenta gradualmente até alcançar 10% em 2037. A política pública reconhece que a vulnerabilidade brasileira não será superada apenas pela existência de reservas minerais conhecidas. É preciso transformar potencial geológico em projetos tecnicamente viáveis, ambientalmente responsáveis, financiáveis e competitivos diante do produto importado. Uma resposta que não é única Autazes tampouco é a única iniciativa em desenvolvimento. Em Sergipe, além da unidade de Taquari-Vassouras, há projetos como o Carnalita, com capacidade projetada de aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de KCl por ano, e a proposta offshore da South Atlantic Potash, ainda em fase de pré-viabilidade. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e outras instituições também pesquisam remineralizadores, fontes alternativas de nutrientes e maneiras de aumentar a eficiência da adubação. Essas alternativas não substituem automaticamente o cloreto de potássio em todas as culturas, tipos de solo ou sistemas de produção. Ainda assim, integram uma estratégia mais ampla. Produzir mais potássio no país é parte da resposta; utilizar melhor o nutriente e diversificar as fontes também são caminhos necessários. Economia e responsabilidade No Amazonas, qualquer discussão sobre a importância econômica do projeto precisa caminhar ao lado das questões ambientais e indígenas. Em agosto de 2026, decisões do Tribunal Regional Federal da 1ª Região mantiveram os efeitos de julgamentos favoráveis ao licenciamento estadual e ao processo de consulta apresentado pela empresa. Posteriormente, o presidente do Supremo Tribunal Federal rejeitou um pedido da Defensoria Pública da União destinado a suspender esses efeitos. A decisão do STF teve natureza processual e não representou um julgamento definitivo sobre todos os impactos ambientais, a competência do licenciamento ou as controvérsias relacionadas à consulta indígena. Segundo a Brazil Potash, o processo de consulta supervisionado judicialmente envolveu mais de 35 aldeias e registrou apoio superior a 90% entre os participantes. O Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e lideranças de comunidades Mura, por outro lado, têm apresentado questionamentos sobre a representatividade do processo, a competência do licenciamento, os impactos sobre territórios tradicionais e o cumprimento do direito à consulta livre, prévia e informada. Portanto, a existência de licenças e decisões favoráveis ao empreendimento não significa que a controvérsia jurídica e socioambiental tenha desaparecido. Também precisarão ser acompanhados os efeitos materiais da operação: consumo e manejo da água, disposição de rejeitos e sais, proteção dos aquíferos, possibilidade de subsidência, impactos da infraestrutura portuária e rodoviária, navegabilidade dos rios e eventuais efeitos cumulativos sobre as comunidades da região. Essa divergência não pode ser tratada como detalhe lateral. Um projeto estratégico não recebe licença para reduzir o rigor; recebe responsabilidade proporcional ao seu tamanho. A segurança que o Brasil busca no fornecimento de fertilizantes precisa estar acompanhada de segurança jurídica, transparência, proteção ambiental e respeito às populações diretamente afetadas. Desenvolvimento que permaneça no Amazonas A dimensão econômica do projeto também não deve ser medida apenas pelo volume de potássio retirado do subsolo. Para o Amazonas, será necessário acompanhar quantos empregos efetivos serão criados, qual parcela será ocupada por trabalhadores locais, quanto ficará em arrecadação, quais fornecedores regionais participarão da cadeia e quais investimentos serão realizados em qualificação profissional e infraestrutura. Durante a construção, projetos desse porte costumam gerar um número elevado de postos temporários. Na operação, o quadro tende a ser menor, porém mais permanente e especializado. Por isso, promessas de empregos precisam ser apresentadas com clareza, separando vagas temporárias, permanentes, diretas e indiretas. A mesma situação vale para os efeitos sobre Autazes. O aumento da atividade econômica pode ampliar renda e oportunidades, mas também pressionar habitação, transporte, saúde, educação e outros serviços públicos. Desenvolvimento regional exige planejamento para que os benefícios econômicos não sejam acompanhados por custos sociais transferidos ao município. Uma contribuição relevante, não uma solução completa O Projeto Potássio Autazes pode representar uma mudança importante para o Amazonas e para o país. Se alcançar a produção projetada, poderá responder por aproximadamente 17% do consumo nacional, segundo a ANM, reduzindo a exposição brasileira ao mercado externo e inserindo o estado em uma cadeia decisiva para a produção de alimentos. Não será, contudo, a solução completa. A autossuficiência dependerá de diferentes projetos, expansão da produção existente, pesquisa, uso mais eficiente dos nutrientes, infraestrutura, financiamento e responsabilidade socioambiental. A medida mais realista do projeto talvez seja esta: Autazes não tornará o Brasil autossuficiente, mas poderá deixá-lo menos vulnerável. Entre a dependência atual e a autonomia desejada existe um caminho longo. O Amazonas pode ocupar um lugar relevante nessa travessia, desde que o potencial anunciado consiga se transformar em produção efetiva, segurança de abastecimento e desenvolvimento que também permaneça na região. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/amazonia-negocios/noticia/2026/09/17/potassio-de-autazes-quanto-o-projeto-pode-reduzir-a-dependencia-brasileira-das-importacoes.ghtml


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