Ouro ilegal, trabalho escravo e influência do CV: relatório revela rede de crimes em garimpos no Amazonas

  • 13/09/2026
(Foto: Reprodução)
Operação da PF destruiu dragas de garimpo ilegal no interior do Amazonas Divulgação/PF Um relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas, obtido pelo g1, reúne investigações que apontam uma rede de crimes em garimpos no estado, com a extração ilegal de mais de 290 quilos de ouro em dois casos. As apurações também identificaram 56 trabalhadores em condições análogas à escravidão, uso de mercúrio e cianeto e danos ambientais estimados em mais de R$ 1,7 bilhão, além da influência da facção Comando Vermelho. O documento reúne as principais atividades do Gaeco entre julho de 2025 e junho de 2026. O relatório foi encaminhado ao Conselho Superior do MPF e analisado pela subprocuradora-geral da República Samantha Chantal Dobrowolski. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Entre os casos estão as operações Jurupari e Barões do Filão, que investigaram a exploração ilegal de ouro, além das operações Brazilian Cricket e Roque e de outras apurações sobre tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e a atuação da facção Comando Vermelho no Amazonas. Operação tenta desmontar área de garimpo ilegal em Maués, no sul do Amazonas A maior quantidade de ouro aparece na Operação Jurupari. Segundo denúncia do órgão, uma organização criminosa extraiu pelo menos 219 quilos de ouro ao longo de aproximadamente três anos. O MPF classificou a estimativa como conservadora e calculou em R$ 1,5 bilhão os danos ambientais provocados pela atividade. A denúncia aponta que empresas e terceiros eram usados para dar aparência de legalidade às operações, justificar a circulação de valores incompatíveis com as atividades declaradas e ocultar a origem do ouro. Em abril de 2026, o Gaeco apresentou duas denúncias relacionadas ao caso. Um dos denunciados foi o tenente-coronel do exército Abimael Alves Pinto. Durante a investigação, houve quebra de sigilo telefônico do militar. Em mensagem de áudio, ele avisava garimpeiros sobre uma operação na região de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. Em um outro trecho, ele detalha a dinâmica da atuação dos agentes. O g1 tenta localizar a defesa de Abimael Alves Pinto. A outra investigação é a Operação Barões do Filão, deflagrada em agosto de 2025 para investigar a exploração ilegal de ouro no Filão do Abacaxis, dentro da Floresta Nacional de Urupadi, em Maués. Operação flagra trabalhadores em situação análoga à escravidão em garimpo ilegal em Maués Segundo o MPF, foram identificados cerca de 71,1 quilos de ouro e uma estrutura dividida entre direção do garimpo, operação dos poços, segurança armada, administração financeira e comercialização do minério. Trabalhadores, mercúrio e armas A denúncia da Barões do Filão também apontou que 56 trabalhadores foram submetidos a condições análogas à escravidão. O caso envolve, ainda, crimes ambientais e o uso de substâncias tóxicas no beneficiamento do ouro. "A partir dos elementos técnicos reunidos nos autos, verificou-se a usurpação de aproximadamente 71,1 quilos de ouro, além da submissão de 56 trabalhadores a condições análogas à escravidão e a ocorrência de danos socioambientais e patrimoniais no valor mínimo estimado de R$ 267 milhões", diz trecho do documento. Uma estimativa técnica do Gaeco apontou que cerca de 8,5 quilos de mercúrio foram convertidos em metilmercúrio, uma forma mais tóxica do elemento químico, e incorporados à cadeia alimentar. A investigação também identificou retirada de solo, abertura de poços, destruição da vegetação e lançamento de rejeitos em cursos d’água da bacia do rio Abacaxis. LEIA TAMBÉM: VÍDEO: trabalhadores em situação análoga à escravidão são resgatados e garimpo subterrâneo ilegal é desativado no AM PF faz operação em 4 estados após descobrir garimpo ilegal em terras da União no AM A operação resultou na prisão de investigados e na apreensão de ouro, celulares, computadores, documentos, veículos e armas. Em uma das residências, os agentes encontraram fuzil calibre 5.56, submetralhadora, espingarda, revólver e mais de 400 munições. Em outro endereço, foram apreendidos cerca de 140 gramas de ouro sem documentação e uma arma irregular. Segundo o relatório, um dos investigados tentou destruir celulares com um martelo antes da entrada dos agentes. Investigações miram o Comando Vermelho Além dos casos envolvendo garimpos, o relatório detalha investigações sobre a atuação do Comando Vermelho no Amazonas. Os casos relacionados à facção aparecem em operações distintas das investigações que miraram a exploração ilegal de ouro. Em fevereiro de 2026, o Gaeco denunciou 13 pessoas por tráfico transnacional de drogas, organização criminosa, lavagem de capitais, sonegação fiscal e uso de documento falso. Segundo o MPF, os recursos do tráfico eram depositados em contas de "laranjas", e parte do dinheiro era convertido em criptoativos e enviado para carteiras digitais na rede Tron. A denúncia também apontou Alan Sérgio Martins Batista, conhecido como “Alan Índio”, “Índio”, “Sangue Azul” e “Paizão”, como integrante de posição de destaque na estrutura do Comando Vermelho no Amazonas. Segundo o MPF, ele fazia parte do chamado Conselho Permanente da facção e exercia influência sobre integrantes que atuavam em diferentes zonas de Manaus. Quem é Alan do Índio, que dava ordens do CV a advogados presos no AM e fez plásticas para fugir da polícia Já a Operação Roque, deflagrada em novembro de 2025, investigou o chamado núcleo jurídico do Comando Vermelho no Amazonas. Quatro advogados foram presos e denunciados por pertencimento à organização criminosa. Segundo o Gaeco, eles eram chamados internamente de “Gravatas do CV” e utilizavam o acesso a presídios e a comunicação reservada com internos para transmitir informações entre integrantes presos e lideranças externas da facção. "Também foi constatada a utilização do parlatório virtual do sistema penitenciário para a gravação de vídeos e o encaminhamento de recados de internos a lideranças externas. Os advogados visitavam presos indicados pela cúpula, recolhiam as denominadas “visões” , ordens ou deliberações estratégicas, e as retransmitiam aos demais níveis hierárquicos", diz trecho do documento. Antes e depois de Alan do Índio, chefe do Comando Vermelho no Amazonas e alvo de operação da PF. Reprodução R$ 128 milhões em uma empresa de câmbio e grilagem Outra denúncia apresentada pelo Gaeco em junho de 2026 investigou a atuação da empresa Romar Ltda., de nome fantasia ARA Câmbio e Turismo. Segundo o MPF, a empresa era utilizada para operações de câmbio, transferências internacionais e conversão de ativos sem autorização do Banco Central. No período analisado, a empresa movimentou mais de R$ 128 milhões em créditos e débitos. A investigação também apontou a utilização da Bellagio Barbearia Ltda. para receber valores atribuídos à organização criminosa por meio de Pix. Segundo a denúncia, aproximadamente R$ 150 milhões foram enviados para determinadas carteiras digitais entre outubro de 2025 e abril de 2026. Parte das contas destinatárias estava vinculada a usuários na Colômbia. Em junho, o Gaeco incluiu Kelisson Rego da Silva na denúncia e afirmou que ele atuava a partir do país como fornecedor de drogas para integrantes do Comando Vermelho no Amazonas. O g1 tenta localizar a defesa de Kelisson Rego da Silva. O relatório também traz dados da Operação Brazilian Cricket, que investigou um esquema de grilagem e “esquentamento” de terras no Amazonas. Segundo o MPF, os investigados inseriam informações falsas em registros imobiliários e sistemas da União para dar aparência de legalidade à ocupação de terras públicas federais. Um dos imóveis citados, a Fazenda São Pedro 19, chegou a constar no Sistema Nacional de Cadastro Rural com 39.316,5010 hectares. O relatório de atividades foi apresentado ao Conselho Superior do MPF em cumprimento à resolução que determina o envio semestral das ações realizadas pelos grupos de combate ao crime organizado. Em 7 de agosto de 2026, a relatora, Samantha Chantal Dobrowolski, votou pela ciência dos relatórios.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/09/13/ouro-ilegal-trabalho-escravo-e-influencia-do-cv-relatorio-revela-rede-de-crimes-em-garimpos-no-amazonas.ghtml


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