Indígenas de recente contato são vistos em rio perto de cidade no AM; especialistas alertam para evitar proximidade

  • 31/07/2026
(Foto: Reprodução)
Grupo de indígenas Korubo é visto no AM; especialista alerta para o não contato Um grupo de indígenas da etnia Korubo, de recente contato com a sociedade, foi visto navegando por um rio no município de Atalaia do Norte, no interior do Amazonas. O avistamento em uma área próxima a comunidades ribeirinhas gerou apreensão entre moradores, mas especialistas alertam que qualquer tentativa de aproximação deve ser evitada para proteger os indígenas e respeitar a política brasileira de não contato com povos isolados e de recente contato. Em um vídeo gravado por uma moradora, o grupo aparece se deslocando em embarcações enquanto pessoas gritam ao fundo. No relato, ela pede apoio às autoridades responsáveis pela proteção dos povos indígenas. "Autoridade, alguém aí da Funai, não sei, de algum desses órgãos, esses indígenas estão parando no nosso porto. Eles chegam aqui aos gritos. Agorinha eles pararam aqui no nosso porto, pararam semana passada, meu irmão falou para eles não vir, e relatos dizem que são Korubo e a gente está com medo deles, porque estão agressivos. Se alguém puder fazer alguma coisa, a gente agradece", disse a moradora. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Ao g1, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que, até o momento, "não há confirmação técnica de ocorrência que indique situação de risco ou deslocamento atípico do grupo Korubo que justifique a alteração dos protocolos de proteção". De acordo com o órgão indigenista, o grupo retratado na filmagem habita a região do baixo rio Ituí e do baixo rio Itacoaí e estava a caminho da sede de Atalaia do Norte para visitar parentes. Durante o trajeto pelo rio Itacoaí, os indígenas fizeram uma breve parada na comunidade ribeirinha de Cachoeira para pedir alimentos", explicou a Funai. A Funai também esclareceu o motivo dos gritos relatados pela moradora no vídeo: "Em razão de suas características socioculturais, os Korubo costumam emitir vocalizações específicas ao se aproximarem de determinados locais ou durante suas interações. Para pessoas que desconhecem seus costumes e formas de comunicação, tais manifestações sonoras podem causar estranhamento ou apreensão. Contudo, esse comportamento integra suas práticas culturais e, por si só, não representa situação de agressividade ou ameaça", explicou a nota da instituição. O órgão reforçou ainda que existem outros grupos Korubo em isolamento voluntário no Vale do Javari, mas em regiões distantes da mostrada nas imagens, sem qualquer ligação com o episódio. A Funai informou que enviará uma equipe técnica da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE-VJ) à comunidade Cachoeira para dialogar com os moradores, prestando esclarecimentos culturais para evitar desinformação e prevenir conflitos. Grupo é de recente contato e Funai atua no diálogo, diz Observatório Ao g1, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi), organização que defende o direito desses povos à autodeterminação e a manter seus modos de vida próprios, esclareceu que os indígenas Korubo vistos no vídeo não pertencem a um grupo totalmente isolado. De acordo com a entidade, trata-se de indígenas de recente contato, que passaram a estabelecer relações com a sociedade a partir da década de 1990. Mais recentemente, esse grupo tem se deslocado com maior frequência entre a Terra Indígena Vale do Javari e a sede do município de Atalaia do Norte , deslocamentos que, muitas vezes, são estimulados pelo próprio poder público municipal. O Opi ressaltou ainda que as comunidades do entorno precisam compreender que esses povos possuem diferenças culturais e de costumes significativas em relação à sociedade não indígena, mas enfatizou que tais diferenças precisam ser respeitadas e não devem ser interpretadas automaticamente como ameaças. Ainda segundo a entidade, o vídeo chegou ao conhecimento das autoridades e a Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, unidade da Funai responsável pela proteção dos grupos isolados e de recente contato na região, já está atuando para mediar as relações e o diálogo entre os Korubo e os moradores não indígenas da área. Especialista reforça política de não contato Indígenas da etnia Korubo são avistados em rios no interior do AM Divulgação Diante do avistamento, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique dos Santos Pereira, reforçou que esse tipo de situação exige cautela e que a população deve evitar qualquer interação com os indígenas. "O princípio adotado pelo Brasil e reconhecido internacionalmente é o do não contato, justamente para proteger esses povos de doenças para as quais não possuem imunidade, de conflitos e de interferências em seu modo de vida", explicou o especialista. Henrique dos Santos Pereira alertou ainda que moradores e visitantes não devem oferecer alimentos, tentar fotografar os indígenas de perto ou divulgar a localização exata do grupo. "Não deve haver oferta de alimentos, fotografias a curta distância ou qualquer tentativa de interação. Também é importante que a localização exata não seja amplamente divulgada, pois isso pode atrair curiosos, pescadores, caçadores ou outros grupos, aumentando os riscos. Sempre que houver avistamentos, a conduta correta é comunicar imediatamente a Funai, que avaliará a situação e adotará as medidas necessárias", completou. Quem são os Korubo Os Korubo pertencem à família linguística Pano e vivem na Terra Indígena Vale do Javari, território com mais de 8,5 milhões de hectares que abriga a maior concentração de povos indígenas isolados e de recente contato do mundo. Parte do povo Korubo mantém contato com a sociedade brasileira desde a década de 1990. Outros grupos, porém, seguem em isolamento voluntário ou mantêm contato extremamente restrito, dependendo da floresta para sobreviver por meio da caça, da pesca, da coleta e da agricultura de subsistência. Embora existam registros de conflitos na região, especialistas e organizações socioambientais lembram que os Korubo também foram vítimas de invasões, ataques e outras formas de violência praticadas por não indígenas ao longo das últimas décadas. O monitoramento da Terra Indígena Vale do Javari é realizado pela Funai em parceria com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). O trabalho busca impedir invasões, evitar contatos não autorizados e proteger os povos indígenas que vivem na região. LEIA TAMBÉM: Ao menos três municípios do AM com terras indígenas estão sob alta vulnerabilidade ao crime organizado, diz estudo Indígenas do Vale do Javari, onde Bruno e Dom morreram, sofrem com abandono, conflitos e ameaças no AM Caso Bruno e Dom: veja cronologia desde a morte das vítimas até o indiciamento do suposto mandante do assassinato Binan Tuku canta para os Korubo, com Possuelo (ao fundo), no primeiro contato com o grupo de Mayá em 1996 Foto: Ricardo Beliel

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/07/31/indigenas-de-recente-contato-sao-vistos-em-rio-perto-de-cidade-no-am-especialistas-alertam-para-evitar-proximidade.ghtml


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